Café, chá e câncer de cabeça e pescoço: o que esse novo estudo revelou?

Pessoa bebendo café sob uma luz suave

Será que o seu cafezinho de todo dia pode ajudar a proteger contra o câncer? E o chá, tão comum na rotina de muitas pessoas, teria algum efeito nesse cenário?

Essas foram as perguntas que motivaram um estudo internacional recente, que buscou entender a relação entre o consumo dessas bebidas e o risco de desenvolver cânceres que afetam a boca, garganta e laringe.

O trabalho reuniu dados de mais de 25 mil pessoas por meio do consórcio INHANCE (International Head and Neck Cancer Epidemiology Consortium). Os pesquisadores analisaram informações de 9.548 pacientes com câncer de cabeça e pescoço e 15.783 pessoas sem câncer, entrevistadas sobre seus hábitos antes do diagnóstico — com foco no consumo de café e chá.

Os resultados, publicados em 2025, são interessantes, mas exigem atenção.

O que o estudo encontrou?

Entre os principais achados, o destaque foi para o consumo elevado de café com cafeína. Pessoas que bebiam mais de quatro xícaras por dia apresentaram:

  • 30% menos risco de câncer de boca
  • 22% menos risco de câncer na orofaringe (parte média da garganta)
  • Tendência de redução no risco de câncer de hipofaringe (parte inferior da garganta)

Mesmo o café descafeinado mostrou benefício. Pequenas quantidades diárias foram associadas a uma redução de até 34% no risco de câncer de boca. Isso sugere que outras substâncias do café, como os polifenóis, também podem contribuir para esse efeito protetor.

O chá, por outro lado, teve um comportamento diferente. O consumo de até uma xícara por dia foi ligado a uma redução de 27% no risco de câncer de hipofaringe. No entanto, o consumo maior que uma xícara diária se associou a um aumento de 38% no risco de câncer de laringe.

Um estudo robusto, mas com limitações

Apesar da relevância dos dados, é importante lembrar que este é um estudo observacional do tipo caso-controle. Ou seja, ele mostra associações, não relações de causa e efeito.

1. Viés de recordação

Os dados foram obtidos por questionários aplicados após o diagnóstico, o que pode comprometer a precisão da memória dos participantes sobre seus hábitos passados.

2. Falta de padronização

Os estudos incluídos usaram métodos diferentes para medir o consumo de café e chá. Também não foram avaliados o tipo de bebida, a temperatura ou o modo de preparo — fatores que influenciam seus efeitos.

3. Diferenças culturais

Como os dados são majoritariamente de países da Europa e América do Norte, os resultados podem não se aplicar ao Brasil, onde o café é preparado de forma distinta e o chá tem consumo mais variado.

4. Associação não é causalidade

O estudo aponta tendências estatísticas, mas não prova que café ou chá previnem ou causam câncer. Há muitos outros fatores em jogo, como tabagismo, álcool, dieta e genética.

O que isso significa na prática?

Apesar dos achados do estudo, é importante reforçar: essa pesquisa, isoladamente, não justifica mudanças de hábito.

Não se trata de uma recomendação para começar a tomar café com o objetivo de prevenir câncer. Da mesma forma, os dados não são suficientes para orientar a redução do consumo de chá.

Na prática, o que realmente contribui para a prevenção do câncer é o cuidado contínuo com a saúde: não fumar, evitar o álcool, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física e fazer acompanhamento médico regular.

Tentar alterar um hábito específico — como tomar mais café ou menos chá — não substitui o acompanhamento profissional nem exime ninguém da responsabilidade de cuidar da própria saúde de forma completa.

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DR. LAURO MATOS DE ALMEIDA

Cirurgião de Cabeça e Pescoço

NICE - Núcleo Integrado de Cirurgia e Endocrinologia

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